Roberto Alban Galeria

Artistas Artista

Marcius Kaoru

Matéria para trazer a imagem de lembrar

Sarah Hallelujah

 A essência do trabalho de Marcius Kaoru traz a todo o momento a imagem de um Shishi odoshi, espécie de fonte muito utilizada nos jardins japoneses - trata-se de um dispositivo construído de bambu articulado a outro tubo menor fora do seu ponto de equilíbrio, em repouso, sua extremidade mais pesada, fica descansando sobre uma rocha, quando um filete de água escorre  para dentro da extremidade superior do tubo ela se acumula e move o dispositivo. A água acumulada é despejada e o tubo volta para sua posição inicial para se encher novamente, e o ciclo se repete.

A função desse dispositivo não é tão somente uma fonte, quando o bambu desce com o peso da água ele bate na rocha que está em baixo provocando um ruído forte, um susto, a quebra do silêncio zen do jardim japonês.

Assim como o Shishi odoshi seu impulso poético também oscila, entre o tempo e a memória, busca e se enche nas imagens fotográficas encontradas em álbuns de família, uma identificação ancestral e, em seguida, jorra por meio da matéria, causando um ruído na lembrança, nas imagens familiares que não mais estarão guardadas em gavetas.

É como se estivesse percorrendo um labirinto de memórias, rostos conhecidos, re.conhecimentos, como se ele ainda não pudesse perceber o território que já faz parte, está no seu sangue, não há muito o que dizer ou o que explicar, a imagem pulsa e Marcius faz reviver essas pessoas. E não se satisfaz com a simples reprodução da imagem fotográfica em branco e preto, afinal ela está se perdendo, a prata envelhecida está engolindo as particularidades dos indivíduos retratados, assim o artista até então escultor, designer se faz pintor e experimenta materiais. Sobre o bambu trabalha a superfície pictórica utilizando cola feita com pele de coelho, usa a têmpera para trazer novamente cor àqueles instantes, para que eles não escapem, para que voltem a re.viver.

A filósofa e crítica de arte Anne Cauquelin fala desses ausentes instantes como incorporais: “Frequentamos os incorporais, na maior parte do tempo sem o saber. Quando tento me lembrar de um momento de existência, de um fragmento de tempo vivido, misturam-se nessa reminiscência lugares, pessoas, tempo que passou e tempo que é, falas trocadas: um tecido frágil, que tende a se desfazer se for auscultado de muito perto e cuja consistência decorre exatamente da fluidez.”

Marcius não tem dúvida de querer trazer de volta essas pessoas, ele chega perto e desfaz propositadamente individualidades, re.cria memórias, inventa universos e personagens, mergulha bem fundo na onda de Hokusai e retorna à superfície coberto pelas referências da pintura oriental.

Os familiares de Marcius estão envolvidos com a matéria escolhida por ele, o bambu, saturado de um imenso potencial metafórico, amplamente utilizado na cultura japonesa, símbolo de resistência, flexibilidade e longevidade. A precariedade do suporte é enganosa, temos a sensação de que tanto o bambu quanto as imagens pertencem ao mesmo período e perduraram através do tempo.

O bambu guardou seus traços quando a voz silenciou.  

Quando Marcius fala sobre o procedimento técnico do seu trabalho; - “Colho minhas próprias plantas, já mortas e secas, depois de ter passado pelo ciclo natural de vida, ficam naturalmente mais fibrosas e mais resistentes as pragas.” Esse modo de operar sua técnica, os materiais que utiliza me faz pensar no caçador mongol eternizado por Kurosawa, Dersu Uzala, pois assim como ele Marcius passeia pela natureza sem deixar rastros, ela está fortemente presente em seu trabalho e nem por isso é seu principal motivo poético, a maneira com que manipula a matéria prima é discreta por não ser panfletaria, e fundamental porque é indispensável. 

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