Roberto Alban Galeria

Artistas Artista

Tiago Sant’Ana

Alvo negror

Roberto Conduru

 Refino e Passar em branco, as performances que Tiago Sant’Ana apresenta por meio de fotos e vídeos em Casa de Purgar, têm um elemento em comum: um homem negro realiza ações repetitivas em meio a ambientes arruinados. Outra constante nestas obras é o branco. Como demonstrou David Batchelor em Chromophobia, o branco é tudo, menos uma cor insignificante. É múltiplo, plurívoco.

Entre os brancos, o açúcar refinado tem uma condição especial. Em Refino, é branco o açúcar que o artista peneira, com o qual se cobre, recobre o chão e o altar da arruinada capela do Engenho Paramirim, cobre e descobre um livro para esconder e revelar imagens de Jean-Baptiste Debret com homens cativos prensando cana de açúcar. Como em Refino, são alvas as roupas de Sant’Ana em Passar em branco, assim como as vestes que ele desamassa e ordena geometricamente com equipamentos contemporâneos, indicando a persistência da ruína para além da casa senhorial do Engenho de Oiteiro, em Terra Nova, outro dos muitos na região do recôncavo que produziam açúcar para a Bahia e o mundo.

No Brasil, desde o século XVI, os processos de fabrico e comercialização de açúcar geraram uma cultura material particular, em boa parte requintada: engenhos, casas, templos e muitas outras coisas. Mas o açúcar era fonte de prazer e dor, demandando artefatos imbuídos de perversão. Necessários à produção de riqueza, estes ambientes, edificações e utensílios também destruíam. Não é por acaso que muitos estão degradados. São máquinas criadas para também arruinar, sobretudo gentes da África e seus descendentes escravizados. Nesse sentido, o branco do açúcar é negro. Seja pelos africanos e afro-brasileiros consumidos a partir dos engenhos, seja pelos pressupostos, processos e efeitos tenebrosos do cultivo desse doce, apurado e alvo pó.

O branco é usualmente visto como signo de pureza e perfeição. Contudo, a partir destas performances de Sant’Ana, é possível entende-lo como um meio de opressão, desgaste, menosprezo e extermínio de seu oposto: o negro – a cor e, sobretudo, as pessoas a ela associadas. Além de desvelar criticamente o que se pretendia manter oculto, o artista se vale de práticas religiosas afro-brasileiras e usa o branco como elemento purificador, visando a purgar lugares e coisas dos males neles entranhados por séculos.

Trabalho aviltante, corpo negro, ruína e branco dominante são elementos próprios à problemática que Sant’Ana discute: o colonialismo, o tráfico negreiro, a escravidão e seus persistentes efeitos na Bahia desde a implantação do sistema de exploração econômica da cana de açúcar. A ambiguidade do título da mostra, que permite pensar como casa tanto o engenho onde as performances foram realizadas quanto a exposição e, consequentemente, o Museu no qual as obras são apresentadas, estende ao meio de arte a discussão sobre exploração do trabalho e dominação cultural. E revela a amplitude de sua ações ao mesmo tempo críticas, purgatórias e poéticas.

Obviamente, estas séries de Tiago Sant'Ana estão conectadas à obra de Ayrson Heráclito, quem começou nos anos 1990 a explorar artisticamente o azeite de dendê, a carne de charque e o açúcar, materiais com significados históricos e antropológicos a partir da Bahia, bem como, mais recentemente, rituais religiosos afro-brasileiros como modos de crítica e emancipação em sítios do tráfico negreiro, da escravatura e da colonização. Já disse o grande Willys de Castro: “Em arte, quem não tem pai é filho da puta.” Entretanto, como observou Carl Einstein em Negerplastik, ao analisar a relação dos ditos cubistas com certa arte da África, “o que assume importância histórica é sempre função do presente imediato”. Apresentada publicamente nessa exposição, a parceria artística de Heráclito e Sant’Ana é rua de mão dupla, mais exatamente um rio, o Paraguaçu em seu desaguar na Bahia de Todos os Santos rumo ao oceano Atlântico. Dados os fundamentos das práticas dos dois artistas, podemos dizer que eles partilham, cultivam e expandem um axé, uma família, um terreiro artístico – casa de purgar, criar e transformar. Se, por um lado, a obra de Heráclito se constitui por meio de ações formativas e curatoriais, por outro, é afetada pelos desdobramentos que acolhe, ampara e projeta, mas não prevê nem controla. Sant’Ana confirma e reitera, mas também desdobra e amplia a crítica decolonial por meio de uma poética nutrida em valores da arte e da religião. Em Refino e Passar em branco, ele inquire desde construções arruinantes a convenções de gênero e variados modos de opressão. Assim, nos dá a ver o negrume próprio ao açúcar, ao branco.

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