Roberto Alban Galeria

Artistas Artista

Milena Oliveira

Da ponta da agulha o universo

Paulo Azeco

Milena Oliveira, artista baiana de traços delicados e gesto firme, é movida pela magia do processo de construção. Sua prática é atravessada por duas técnicas seculares, a cerâmica e o bordado, que ela revisita com sensibilidade contemporânea. O que emerge de suas mãos são objetos e narrativas que dialogam com tempos ancestrais, mas também com as fragilidades e potências do presente.

Inspirada pelo minimalismo “afetivo” de Félix Gonzalez-Torres, também tem a obra completamente entrelaçada a aspectos biográficos e constrói um trabalho silencioso em sua forma, mas profundamente ressonante em sua intenção. Assim como no trabalho de Gonzalez-Torres, seu foco está menos no resultado final e mais na capacidade do processo de carregar afeto, memória e uma poética da intimidade. Suas cerâmicas, moldadas e queimadas com paciência, e seus bordados, que se desenrolam ponto a ponto, revelam não apenas uma estética, mas um tempo – o tempo do fazer, do existir, do sentir.

No corpo de trabalho de Milena, a cerâmica e o bordado surgem como manifestações de uma mesma pulsão criativa. Contudo, não é a mídia que melhor define sua prática, mas uma ferramenta recorrente, quase simbólica: a agulha. Ela se faz presente em toda a sua produção, seja perfurando o tecido ou traçando desenhos no barro, conectando superfícies, tempos e sensibilidades. A agulha, para Milena, não é apenas um instrumento de criação, mas também um vetor de encontros – entre passado e presente, entre o visível e o invisível, entre o material e o emocional.

Milena Oliveira nos lembra que, no fazer artístico, há uma beleza inestimável no ato de construir, um lirismo que transcende formas e linguagem, e que reside, sobretudo, no toque humano que imprime significado ao vazio e transforma matéria em poesia.

 

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