Roberto Alban Galeria

A gangorra rasteira e o caracol de Clarysse

Josiltom Tonm

Exposição06/Dezembro até 07/Janeiro, 2017

Objetos sólidos invisíveis

Eduardo Boaventura

Ao aceitar o desafio de escrever sobre o trabalho de TONM, a primeira dificuldade, como conhecedor de sua obra - vasta, profícua, múltipla, dinâmica, etc., etc., etc. – é: Por onde começar? Tomei a decisão de expor o que penso sobre os últimos trabalhos, objeto da presente exposição.
Tonm não é apenas um artista plástico no uso mais simplório do termo. Ele é sobretudo um criador de conceitos, de experiências visuais e sensoriais dos mais complexos tipos e com uso dos mais inesperados materiais. Visitar a obra deste artista é deparar-se com uma capacidade infindável de criar, recriar e transcender.
A vastidão de seu trabalho deve pouco as suas mais de três décadas de criação e muito às peculiaridades qualitativas daquilo que cria e como cria.  
Atendo-nos ao seu momento presente, podemos nomear estas espetaculares obras objetos sólidos invisíveis? Sim, creio que esta metáfora, para início é servível.
As novas esculturas de Tonm, completamente abertas à luz e que permitem ao olhar atravessá-las integralmente, transformando os espaços em formas que se fundem e transformam-se em composições flutuantes, transportando o observador a um diálogo transcendente, à materialidade, como uma nova maneira de ver a composição em tridimensionalidade, coisa para a qual só agora a tecnologia despertou - as imagens tridimensionais através da projeção 3D – já é, há muito, a sensação que transmitem os sólidos vasados, só perceptível a quem acompanha as linhas nas construções do sólido. São linhas paralelas ou radiantes que formam figuras geométricas, quadrados, triângulos, trapézios, retângulos, um lado se sobrepõe ao outro, que por sua vez se sobrepõe a parte superior e inferior, são pontos que os unem e nos unem ao espaço circunscrito, aprisionado – e noutras vezes libertados - em finas linhas e formas em madeiras, todas elas finalmente trabalhadas em tons e possibilidades que só as madeiras nos fornecem dessa maneira rica em detalhes e texturas.
Algumas madeiras por si só, devido a sua raridade e escassez, já constituem uma obra de arte. Mergulhar na beleza do jacarandá da Bahia e encontrar em meio aquele emaranhado de fibras negras, nesgas de um vermelho reluzente, de expressão impactante, que nos surpreendem e tornam a nos transportar através de suas construções insólitas, por não serem estanques – verdadeira expressão da natureza descortinada nas fibras - e descortinar grandes formas sólidas pela luz e observação de um olhar atento.
As formas equilibradas estão integralmente harmonizadas pela construção dos espaços escultóricos em cada peça, construída com inigualável maestria, entre paralelas, quando Tonm maneja a madeira, em sua maturidade de mais de 30 anos, produzindo ininterruptamente arte, em particular esculturas, com os mais diversos materiais – pedras, madeiras, metal, massas, papel, papelão.
Os elementos que compõem o atual conjunto de esculturas que gostaria de permanecer chamando OBJETOS SÓLIDOS INVISÍVEIS, para manter a metáfora inicial e que ainda me parece a descrição mais próxima da realidade que os sentidos captam, denotam uma verdadeira tribo de figuras personalizadas que se impõe ao olhar do espectador e se reconhecem de um objeto ao outro como marco que, de repente se torna familiar para os que já conhecem a obra do artista. Para os que não a conhecem nasce, de imediato, a grata percepção que trata-se de estudos analíticos de formas geométricas, apropriadas de conteúdos sólidos que se tornaram abstratos aos sentidos, ao encantamento do olhar pelas mãos talentosas deste artista. Assim, a partir de varas de madeiras traduzem-se formas que são aprisionadas – ou libertadas a depender do olhar que as capta – em linhas que sugerem tensões energéticas, um modo construtivo de expressar a forma, educando a vista do observador, produzindo ressonâncias de formas mais amplas, ilusões lineares de um modo complexo.
Tonm expressa em sua arte de forma inigualável, arrebatadora e irrepetível, as lições dos grandes mestres universais, eis que é capaz de tornar um objeto simplório do cotidiano – a madeira, a pedra, o metal, etc – numa expressão da profusão da própria vida.
É o que afirma Kandinski: “A forma é a expressão externa do conteúdo interno”.
É o que confirma Paul Klee: “A arte não reproduz o visível, ela torna visível”.
Este tem sido, pois, nesses trinta anos e com maior maestria, ainda neste momento, o trabalho de Josilton Tonm. 

A madeira e a escultura de Josiltom Tomn

Almandrade

Na solidão do atelier, distante do burburinho da cidade, Josiltom Tonm, ocupa o tempo de sua estadia no mundo, coletando retalhos, amostras, sobras de madeira para em seguida fazer associações livres entre os achados, até encontrar uma lógica para o acaso e acrescentar à existência, uma estética. O artista nos coloca diante de um saber sobre o reaproveitamento do foi descartado pela marcenaria, a velha lição de que na natureza, tudo se aproveita, tudo se transforma e o oficio do operário que não se cansa de encontrar sempre uma solução para o que aparentemente seria lixo.

Relevos, esculturas e objetos. A arte desse artista que conhece bem a intimidade da matéria é resultado de um trabalho paciente, delicado, quase obsessivo, de acoplar as partes depois de um tratamento para domar a indiferença da madeira. Faz assim emergir de suas engrenagens imagens que descrevem uma poética da simplicidade. Suas peças são organismos que incorporam o espaço, o vazio e o ar onde são instaladas, flertam com a leveza, às vezes discretas, surgem para o olhar como um lugar a mais para certos sonhos nossos de cada dia.

A escultura renasce livre de volume e peso, do precário. Da junção de partes ou retalhos num jogo de combinações, a engrenagem se ergue, o ar e o olhar que os envolvem pulverizados com a história da cultura são os responsáveis pelos seus significados e por colocar no lugar onde ela se encontra. Um trabalho de especialista que descobre no caos a possibilidade de ordem.

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