Linhas abertas
José Augusto Ribeiro
Um trabalho de Ricardo Homen é sempre uma construção. Os desenhos, as pinturas e os relevos do artista surgem, desde o início de sua trajetória, na década de 1980, da montagem de estruturas, da articulação entre dois ou mais elementos. Nos processos de suas primeiras obras, por exemplo, era comum Homen sobrepor camadas sucessivas de papel e pigmento, para conferir espessura ao suporte, com procedimentos da colagem, e para chegar a faturas pictóricas, em consequência da acumulação de matéria. Além disso, a armação de grades, de linhas verticais e horizontais, arriscava ordenações para essas superfícies, que, por sua vez, insistiam em vibrar com suas manchas de cores, seus brilhos metálicos e a irregularidade de suas extensões. O artista intervinha assim – em um cenário que, entre outras coisas, valorizava a pintura gestual e colorida de artistas jovens e revisitava sob perspectiva crítica as vertentes construtivas formadas no Brasil nos anos 1950 – com um trabalho de inteligência pictórica que se afirmava como desenho e cujo rigor de elaboração chegava a resultados simples, diretos, mas também densos, irregulares e com vivacidade expressiva.
Daí em diante, a geometria é uma constante nessa obra. Por outro lado, o trabalho jamais cedeu seus modos de pensar e fazer aos métodos e à precisão da matemática. Em vez disso, o que parece definir a obra de Ricardo Homen é a lógica interna de seu sistema de produção, ao mesmo tempo construtivo e intuitivo, autor de composições concisas e instáveis. Por três décadas, até 2010, o artista privilegiou trabalhos sobre papel. Realizou, nesse período, uma produção extensa que, a despeito da variedade de aparências, sustenta uma unidade geral por meio de um vocabulário composto principalmente de planos e faixas de cor, situando-se, como linguagem, entre a pintura e o desenho – ao combinar investigações sobre o corpo da imagem, sobre intensidades cromáticas, gestos e luminosidade, com uma disposição para exercitar em série, como quem projeta desígnios, uma síntese visual específica a cada vez (organizada por elementos modulares ou listras, por fileiras e colunas de pinceladas paralelas, curtas ou longas, monocromáticas ou com contrastes de cor etc.). Já nos últimos 15 anos, uma sequência de experimentações com materiais e procedimentos – novos para o trabalho e variados entre si – passou a diversificar também as maneiras de apresentação dessa obra, tanto em sua constituição física, à medida que o artista incorpora o tecido e a madeira em seu labor, quanto no jeito de ocupar os espaços, cada vez mais assertivo na hora de tomar posição na arquitetura.
A primeira exposição individual de Ricardo Homen em Salvador compreende trabalhos produzidos desde 2019 e levam essas investigações iniciadas uma década e meia atrás para direções até então imprevistas. O conjunto reúne pinturas sobre tela e relevos, que, em comum, constituem-se de operações que aproximam, justapõem, empilham, encaixam e sobrepõem campos de cor ou objetos tridimensionais. A maioria das pinturas recentes do artista se apresenta, nesse sentido, como unidade construída, ao manter firme blocos e listras de cor dispostos lado a lado, ou um sobre o outro, em articulações que parecem exercer uma força de compressão ou de atrito estático na superfície do quadro, como se fossem, mesmo, sólidos. Retirar dali um elemento desmoronaria o arcabouço. A uma só vez, nessa geometria de mão e pulso, sem régua nem fita, o preenchimento e o contorno das formas são irregulares, mantêm aparentes os movimentos do pincel e deixam frestas entre um componente e outro. O que, por sua vez, extrai a rigidez visual dos elementos, atribuindo maleabilidade à imagem, amolecendo-os virtualmente. Também por isso, as formas por vezes palpitam, pulsam, tornam-se esponjosas ou basculantes. E é, ainda, com soluções desse tipo que o trabalho, desde o início de seu percurso, esvazia a atribuída sisudez da geometria.
Nos relevos de madeira que o artista começa a produzir em 2013 isso fica ainda mais notável. De saída porque nesses trabalhos Ricardo Homen ergue, com polígonos, estruturas que têm um equilíbrio aparentemente oscilante. Formadas por elementos quadrados e retangulares, essas peças são compósitas, resultam em arranjos heterogêneos, em formatos não-convencionais, numa espécie de geometria quebrada, que não obedece a regras de simetria. Nem por isso a obra abre mão da graça no porte e do apuro estético. O jogo de planos que cada uma dessas estruturas estabelece entre suas partes intensifica a dinâmica da composição, conforme os componentes avançam ou recuam em relação um ao outro, em relação à parede e em relação ao espaço do observador. As cores não apenas agem, como são decisivas nessa movimentação, de acordo com seus matizes, saturações e brilho. E, pela configuração que têm, recortada, irregular, esses objetos acabam por absorver o entorno em seu campo de ação, por incorporar o vazio a seus domínios.
A lida com a marcenaria reforça, também, o princípio construtivo do trabalho, ao mesmo tempo em que parece conferir liberdades aos processos. A produção dessas peças envolve, agora, procedimentos que são novos no percurso da obra. Implica desde o preparo de cada elemento, o corte e a lixa da madeira, às vezes seu revestimento com tela, a preparação desse tecido, para só então vir a pintura; até a montagem das estruturas, com cola, prego e encaixe. Cresceu a manufatura do trabalho, o número e a variedade dos procedimentos – e, nesse ponto, vale lembrar que Ricardo Homen mantém o ofício de moldureiro desde meados da década de 1970, desde antes de iniciar seu trabalho como artista. E, junto com essa ampliação de possibilidades, a obra assume direções liberadoras. Ganha em disponibilidade e porosidade. Expande-se para o entorno e chega junto (sem mediações, sem nem os limites de uma moldura, por exemplo) a quem se posiciona diante dela, seja quando alcança as proporções do corpo humano e da arquitetura, seja ao convocar o observador para relações intimistas. Em decorrência disso, os trabalhos alteraram o modo como o artista monta e dispõe seus trabalhos no espaço, ordenando-os com mais liberdade, espalhados pela parede, e não necessariamente em linha, lado a lado. Colocando-o em alturas variadas, acima e abaixo do nível dos olhos. Muitos relevos têm aparência lúdica, são alusivos e espirituosos. Lembram brinquedos, ou sugerem formas animais. Têm bicos, asas, rabos, e alguns remetem a bichos rastejantes, que parecem subir pelas paredes, em ziguezague. Outros lembram fachadas de casas com portas ou janelas. Reportam a lápis de cor, palitos de fósforo gigantes, instrumentos de medição... Compõem-se, enfim, de uma geometria que, além de sensível, tem humor e tem, cada vez mais, suas linhas abertas.