Roberto Alban Galeria

Estrelas flamejantes em manhã de sol

Tiago Sant’Ana

Abertura 12/Maio

Exposição12/Maio até 01/Julho, 2022

Estrelas flamejantes em manhã de sol

Marcelo Campos

"The sunlight came into the room with the peacefulness one remembers from rooms in one's early childhood – a sunlight encountered later only in one's dreams."
James Baldwin

Dias muito ensolarados causam uma ilusória sensação de nitidez e felicidade. As manhãs parecem anunciar o agora e o depois. Contudo, a lembrança e o vir-a-ser confundem-se. É possível acordarmos com estrelas da noite anterior ainda no céu. Tal imagem roça o encontro entre turnos supostamente opostos, a noite e o dia, e atiça a imaginação dos poetas e da exposição Estrelas flamejantes em manhãs de sol. Tiago Sant’Ana comunga as aspirações dos delirantes, "e se acordássemos e víssemos todas as estrelas do céu da noite convivendo com o sol da manhã?" A partir dessa inquietação ficcional de James Baldwin, romancista negro nascido no Harlem, vemos as correspondências entre as quatro principais pinturas apresentadas nesta exposição, criadas sob certo teor onírico e fabular.

Tiago Sant’Ana pinta corpos e rostos que se iluminam de modo teatral, exibindo as fontes de luz que ora vêm do sol, ora da lua, ou, mesmo, de uma vela acesa. Júlio Cesar Sanches, Ivã Coelho e o próprio artista, em um autorretrato, aparecem envoltos por uma atmosfera alegórica. Na pintura barroca do setecentos, havia o mesmo gesto recorrente em inserir fontes de luz de modo artificial, alegórico, exibidas, pela primeira vez, sem a dissimulação da luz natural das pinturas renascentistas. Com isso, o contraste do claroescuro passou a conferir às personagens uma nitidez dramática, estourada, como no uso do flash fotográfico sob a luz do sol.

Nas quatro pinturas principais que configuram a exposição, Tiago Sant’Ana envereda por escalas mais ampliadas. Cria pesquisas em torno de masculinidades negras, e aqui entendemos a aderência aos escritos de James Baldwin. O claroescuro, antes um conceito, recorrentemente, citado pela história da arte, agora ganha conotações etnicorracias. Na produção atual de Tiago Sant’ana, iniciada no momento da pandemia, o imaginário onírico, referente ao horizonte do impossível, se associa, de outro modo, às expectativas recentes do sistema de arte frente à produção de artistas negros. O que se espera, o que se oferece? O artista, assim, cita, em suas divagações, a epígrafe de James Baldwin, presente no livro The Fire Next Time. Baldwin, ao se imaginar acordando com o céu estrelado, projeta-se em um assombro, aterrorizado, pois tal fato desequilibraria o sentido de razão presente nas leis da natureza. Por outro lado, o autor assume a metáfora e reflete: "o homem negro funcionou no mundo do homem branco como uma estrela fixa, como um pilar imóvel: e quando ele se move para fora de seu lugar, céu e terra são abalados em seus fundamentos." Com isso, a possibilidade de Tiago Sant’Ana produzir o simbólico, o fabular, não o distancia de um pensamento contemporâneo, mesmo em imagens telúricas, onde a expectativa de um sistema de arte por obras de artistas negros não, necessariamente, condiz com a mobilidade dos mesmos, já que, como nos afirma Baldwin, imagina-se o negro "como um pilar fixo". Mas, se acontece dele se mover "céu e terra são abalados".

Tiago Sant’Ana mantém-se atento às questões que norteiam sua produção. Por uma das principais vias, temos o corpo, o corpo que performa, se exibe, se apresenta e enfrenta a cena. O artista inicia sua produção pelas experiências da performance e na atuação junto a grupos e coletivos. Havia, então, na época, o interesse em democratizar a arte, em atuar em lugares públicos, muitas vezes, desvinculados do sistema de arte. Por outro lado, Sant’Ana participou dos salões regionais, ampliando o uso de outras linguagens, como a fotografia e o vídeo. Deste modo, chega-se a necessidade de um controle maior dos resultados da imagem, o que, em performances experimentais, nem sempre acontecia. O uso da fotografia e do vídeo colocam o artista dirigindo a cena, e o trabalho ganha em controle, teatralidade e dramaticidade.

Estrelas flamejantes em manhãs de sol apresenta-nos uma nova pesquisa de Tiago Sant’Ana em que o controle pelo resultado se mantém. O próprio modo preciso de executar as pinturas, o que vemos nos desenhos e sketchs também expostos, definindo áreas de cor, manchas gráficas, mantendo certa geometrização, mesmo ao produzir céus e nuvens, marca uma singularidade, sobretudo, na geometrização mais precisa de volumes. Os degradês quase não nos deixam entrever a divisão entre as passagens de cor. O que poderia colocar a produção em um realismo quase fotográfico, recua ao, de fato, ensolarar ainda mais os lugares de claridade, a alvura das roupas, por exemplo, que quase se aproximam da atmosfera solar de Edward Hooper e Eric Fischl. No contraste, Sant’Ana opta por brancos puros, estourados. E, aqui, voltamos ao elemento norteador da exposição: o sol.

Na pintura que dá título à mostra, a personagem de Julio Cesar Sanches, vestida de terno, cor rosa palha, segura uma máscara de sol, próxima ao rosto. O artista nos explica que a cor "tem a ver com os tons que muitas vezes o céu adquire no crepúsculo. Então, novamente é esse investimento em algo que ainda não aconteceu, mas que está próximo de acontecer (não é nem dia e nem noite completamente)". Por trás do homem em pé, um céu em degrade incita-nos a imaginar a aurora ou o crepúsculo. Nas palavras do artista: "o sol tem uma história curiosa pois é uma variação de uma escultura do Rei Sol, Luís XIV. Aqui a máscara adquire feições negras, desde os lábios, o nariz até o cabelo trançado." Sant’Ana se refere à personagem da história da nobreza que, de certo modo, demonstra, pela primeira vez, a potência da imagem para além do que a própria indicia. O símbolo que suplanta o índice. Luís XIV, cujos retratos vão desde quando era um "bebê enrolado em coeiros" a "um velho em uma cadeira de rodas", como observou Peter Burke. O mais famoso retrato de Luís XIV, feito por volta de 1700, de autoria de Hyacinthe Rigaud, abusa dos ornamentos, detalhes, brocados e tecidos. A imagem pública, então, se distancia da privada e particular, ou, mesmo, da autoimagem. Antes, ao contrário, se constrói como uma imagem metafórica e se projeta em textos, poemas e peças teatrais, rituais da corte, em forma de espetáculo, como analisa Peter Burke em texto dedicado, integralmente, ao Rei Sol. Burke também lembra um conceito de Clifford Geertz, o "estado de teatro" ao refletir sobre os retratos do Rei. Aqui, podemos dizer que, nas pinturas de Tiago Sant’Ana, as personagens aparecem em "estado de teatro", encenando. Porém, criam-se conexões astrais, em contato com outros mundos, outras cosmovisões, ou melhor, com mundos imaginados.

Na alegoria criada por Tiago Sant’Ana, céu e estrelas são, também, cortinas e azulejos, "estampas", palavra curiosamente associada ao que se projeta de uma personalidade, a partir de um sujeito. A estampa que interessa à Estrelas flamejantes adensa a compreensão alegórica, racializando-a. Homens de estampas elegantes, mantendo os pés descalços, nos incitam a pensar nas pesquisas do artista sobre um passado escravocrata do Brasil. "Aqui ha? uma conexão com toda a minha pesquisa sobre o calçado como esse símbolo precário de cidadania negra – que nunca foi alcançada completamente no Brasil", comenta o artista. Mas, de outro modo, os pés descalços nos projetam aos gestos afro religiosos e ameríndios onde orixás, voduns e caboclos pisam a terra em transe, conexão energética com as forças do àiyé e do òrun.

Ao ouvirmos algumas análises de Renato Pereira sobre o Candomblé da Barroquinha, concluímos que o conhecimento africano sobre teatralizações presentes na Bahia do século XIX mesclaram-se aos autos da fé católica, contribuindo para a popularização e para a competência fervorosa e teatral das procissões populares de hoje. Ou seja, é na primazia da teatralidade que o Brasil escova a história à contrapelo, como quis Walter Benjamin, e muda as referências da branquitude, encenando outros dramas, coroando outras rainhas e outros reis negros nas congadas e maracatus.

Hoje, nas afetações das redes sociais, a teatralidade se enriquece ativando uma, ainda maior, preocupação com a imagem e com a construção de narrativas. Festas, eventos patrocinados por grifes internacionais de moda são, de outro modo, manifestações políticas ambíguas, pois surgem no âmago do capitalismo que difundiu o racismo, mantendo corpos normativos sempre brancos nas capas das revistas. Se o Rei Sol, percebendo o poder da imagem, fez de sua figura uma matriz difundida em medalhas, bustos, nomeando lugares, praças, ruas, estilos de mobiliário, o que faremos para que isso aconteça com personagens negros? Tiago chega em momento propício a esta reflexão, quando pessoas negras se tornam capas de revista, protagonistas de narrativas, confluindo ativismo e futilidade em um mesmo signo. "A ideia de um homem segurando um sol também alude a uma tomada de poder", afirma Sant’Ana, "mas, um poder que também não foi alcançado completamente – por isso a máscara ainda cobre uma parte do rosto gerando uma sombra, um eclipse."

Em mundos de sombras e sóis, Zaratustra, personagem eremita de Nietzsche, decidiu sair do exílio das cavernas, percebendo que as praças necessitavam ser iluminadas. Viu o sol incidir sobre uma águia e desceu anunciando as boas novas, como um arauto, um ditirambo. O poeta pernambucano Manuel Bandeira, de outro modo, procurou a estrela da manhã, "cadê a estrela da manhã? (...) ela desapareceu ia nua (...) Eu quero a estrela da manhã". Enquanto isso, no amanhecer da luz de Copacabana, o poeta maranhense Ferreira Gullar olhou os raios de sol por sobre a mobília da sala e decretou um desejo impossível: "ser somente o presente, essa manhã, essa sala".

São imagens e cenas alegóricas como essas, o que vemos em Estrelas flamejantes. E Tiago Sant’Ana usa e amplia a ideia de alegoria ao juntar fragmentos antes desassociados em uma realidade contextual estranha. Sol, lua, estrelas aparecem em campos de girassol, por sobre as cortinas ou no sofá da sala. Tal fato nos remete à análise de Peter Burger sobre o conceito de alegoria trazido por Benjamin do drama barroco alemão. Porém, qualquer outro atravessamento desta condição, como as próprias relações com a ficção científica ou a narrativa mitológica, faz com que a produção de Sant’Ana se enriqueça e questione o próprio sentido europeu do termo "alegoria" em Burger e Benjamin.

A obra de Tiago abre a reflexão sobre a separação de elementos, quase como uma colagem, mas, mantém, em contraposição ao que afirma Burger, a "aparência de totalidade". São cenas amplas e totais que se contadas por uma perspectiva africana ou por pensamentos advindos dos povos originários, manter-se-ão na instância de um presente cotidiano, mesmo quando ganham interpretações míticas, lendárias. Por isso, se faz tão importante racializarmos a história, pois numa ideia de autonomia formal, os elementos materiais e simbólicos foram lançados por artistas que acreditavam na racionalidade da independência formal e conceitual dos mesmos, buscando uma universalidade que foi, pura e simplesmente, colonialismo. Tiago Sant’Ana não chega a nos revelar deuses, mesmo que alguns elementos possam estar presentes em mitos nagôs, como a relação entre o sol e o orixá Obaluaê. Curiosamente, o Rei Sol tinha um sacro poder de curar doenças de pele ao proceder o "toque real" sobre seus súditos, dizendo, "o rei te toca, o Deus te cura", uma cura tal qual a do orixá senhor da terra no candomblé. Mas, assim como faz o artista hoje, os elementos teatralizados devem ser lidos como metáforas correspondentes ao presente.

Em Baldwin, por exemplo, a alegoria da noite e do dia se constrói de modo metafórico, a partir das discussões sobre homens negros. "O respeito aumentou meu medo, pois significava que eles esperavam algo de mim que eu sabia em meu coração, por causa deles, eu não poderia dar", reflete a personagem negra de Baldwin em relação a uma carga diaspórica intransponível entre brancos e negros. Tiago Sant’Ana afirma, em referência a uma das pinturas, chamada "Leva na garganta uma ferida acesa (Julio em campo de girassóis)", em que a garganta de um homem negro é iluminada por uma vela: "o ato de falar do homem negro seria como uma espécie de ponto de luz numa escuridão." As metáforas da claridade e da escuridão ganham, então, sentidos sociais aproximados. Em Achille Mbembe, o "sair da grande noite", título de um dos seus livros, seria um modo de expandir a africanidade, desconsiderando a luz advinda da Europa como referência, atitude que o autor enriquecerá ao refletir que um "devir negro do mundo" alcançará escalas planetárias. Novamente, o lugar da expansão e da mobilidade: sair, deixar, atravessar, abandonar, raiar, como condições afrodiaspóricas e decoloniais. Porém, em sentido oposto, ao chegar ao Novo Mundo, o que se espera da masculinidade negra é o que Baldwin afirma em sua condição de fixação: "a intenção era que você morresse no gueto, perecesse por nunca ter permissão para ir além das definições do homem branco, por nunca ter permissão para soletrar seu nome próprio."

Como certo revide ao modo de representação dos negros no Brasil, o retrato de corpo inteiro, que Tiago Sant’Ana nos apresenta, assume um personagem com roupas elegantes, não esfarrapadas, justamente, pensando nas conquistas, capitalistas, por que não? De outro modo, luas e sóis configuram certa vontade pródiga, como nas imagens contidas nas canções de Cartola, correr e olhar o dia, assistir o sol nascer, ver o sol colorindo. Um certo gosto agridoce, tal qual a difusão de uma carreira no decorrer de uma vida, reflete o artista, atravessa o momento atual, em que vivemos em "estado de teatro".

Com certa esperança, em perspectivismo afro-ameríndio, "sete luas", "estrela" se parecem a nomes de caboclos nas tradições banto. Podemos lembrar que em seus cantos, também há cenas com elementos da natureza, luas, estrelas, árvores, plantas. E tais imagens vêm ao nosso socorro, anunciando a possibilidade de mudança, a aurora dos dias e da vida, mas que são, antes, cantos de demanda, pois convivem com os desafios de sempre.

Lembremos, em outra clareira, do poeta surrealista Aimé Cesaire, nascido na Martinica, que desejou, em Espelho fértil, um sol mais brilhante e estrelas mais puras sem pagar com a crucificação de seu próprio retrato. Para isso, por entre ribaltas e girassóis, como nos afirma Tiago Sant’Ana, precisamos "trazer esse homem para o campo do sonho e da imaginação".

Bibliographic references:

Baldwin, James. The fire next time. New York: Vintage international, 1962.
Bandeira, Manuel. Estrela da manhã, 1936.
Burger, Peter. Teoria da vanguarda. São Paulo: Cosac & Naify, 2008.
Burke, Peter. A fabricação do Rei: a construção da imagem pública de Luís XIV. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994.
Cesaire, Aimé. Les Armes Miraculeuses, Paris: Gallimard, 1970
Cartola. Alvorada, 1974.
_______ Corre e olha o céu, 1974.
_______ Preciso me encontrar, 1976.
Gullar, F. Extravio, 1999.
Mbembe. Sair da grande noite: ensaio sobre a África descolonizada. Petrópolis: Vozes, 2019.
Nietzche, F. Assim falava Zaratustra. Lisboa: Guimarães Editores, sem data.
Pereira, Renato. O candomblé da Barroquinha. Salvador: Maianga Edições, 2006.

×